jaqueta jeans

Queria te presentear com todos os instrumentos do mundo pra você não ter desculpa alguma pra se expressar. Pra você poder tirar sangue das partes esquecidas do teu corpo que morre de medo de tocar. Pra você existir do jeito que mais combina com você: Dentro de uma melodia. Pra você não sofrer mais com teu silêncio. Pra você nunca mais se enrolar pra dizer o que precisa ser dito. Pra você amolecer as tuas angústias tão devastadoras. Pra você ser levado pelo som e sem querer fugir de casa. Queria te presentear com uma jaqueta jeans, todo mundo fica bonito de jaqueta jeans, você ficaria muito mais que bonito. Uma jaqueta que te fizesse ver pelo reflexo do espelho toda a beleza que foi arquitetada no teu rosto, depois de você, quase não sobrou beleza pro mundo. Queria que essa jaqueta jeans te fizesse andar por ai como se estivesse num take de cinema com rock antigo ao fundo, seria seu momento absoluto de alegria. É que o que eu queria te dar de presente mesmo era a felicidade, mas essa eu não sei onde encontrar, me disseram que era pretensioso demais querer dar felicidade pra alguém, eu discordo. Mas não importa se eu discordo. Eu não sei onde a felicidade vive, então resolvi que você ficaria lindo de jaqueta jeans enquanto tenta decifrar todos os instrumentos do mundo, imaginei que isso fosse te fazer feliz. Você ama música. E você estando feliz a felicidade viria te visitar e esse seria o fim do texto.

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desencaixe

Você é a minha camisa favorita que não serve mais. Você é a louça acumulada na cozinha. Você é a estação que a antena do meu rádio não encontra. Você é a estrada cheia de buracos, e olha só: hoje eu vim descalço. Você é o Filho que vai e eu sou a Mãe que fica. Você os galhos secos e eu as folhas no chão. Você a saída de incêndio e eu a porta de entrada. Você o filme e eu os créditos finais. Você é o nó cego que a gente faz no cadarço por causa da pressa de amarrar o tênis pra sair de casa. Você o castigo, eu o pecado. Você é a prática e eu a teoria. Quando eu sou a prática você é a teoria. Você esquece, eu anoto. Você despreza, eu contextualizo. Você diz não, eu digo talvez não. Você cansa, eu luto. Você é o papel amassado jogado na sala há algumas semanas. Eu odeio varrer a sala. Você é a lanterna quebrada que não ilumina o caminho que vem à frente e eu dirijo sem saber pra onde vou. Mas vou. Aliás, tenho ido. Você enjoa, eu finalizo. Você fala, eu faço cena. Você acende o fósforo, eu entro em erupção. Você deita, eu deito e rolo. Você vai pela janela, eu prefiro a forca. Você improvisa, eu decoro o texto. Enquanto você questiona eu vou na fé. Eu choro, você lamenta, e vai. Só separando você e eu de nós pra tentar me fazer compreender que o tecido da tua pele rejeita a linha que eu uso pra bordar, eu não posso trocar a linha e você não pode trocar de pele.

feridas abertas

[…] você me arrombou por inteiro, do cu ao coração; e agora eu nunca mais vou conseguir fechar as feridas que teu pau e tuas injúrias me deixaram, eu sangro. e cada gota de sangue encharca as avenidas frias de uma cidade mais fria ainda, você me fodeu sem pagar e não ganhei nada em troca, só a desgraça desse maldito caos que você instaurou em mim. vai tomar no cu moleque! e eu espero que você tome no cu do mesmo jeito violento e sem dó que você me fodeu de perna aberta. eu vou plantar na tua casa todos os crimes que você já me co-meteu e em seguida vou te denunciar, gritando bêbado de pinga, dizendo a todos que puderem ouvir que você deixou meu cu sangrando por conta do teu pau grosso e sem alma. “Ele me fodeu. Prendam esse escroto fodedor de buracos. Rompedor de bons sentimentos. Desvirginador da minha paz. Ele me fodeu e eu não posso voltar atrás.” vou cortar minha pele com a lâmina que sobrou da minha última mudança dançada e cortarei o rosto do primeiro que passar pra esperar que me denunciem pra gente parar no mesmo lugar e assim que nos encontrarmos nesse novo lugar você possa me foder de novo, a diferença é que lá você não vai poder fugir de mim.

mais

Eu sou essa bagunçada ensaiada que chora na tua frente. Que se insinua. Que ri alto demais e que fala sem parar. Assim que te vi pela primeira vez eu quis pular em você e te devorar inteiro, queria tirar toda tua roupa e lamber cada parte do teu corpo, queria descobrir todos teus mistérios, queria acessar todas tuas dores, angústias e pensamentos mais profundos, queria te amarrar na minha cama e nunca mais soltar. Mas só sorri e te ergui a mão dizendo: – Tudo bem?
Eu gostava de te ouvir falar sobre teus gostos e sobre aquela música que você não cansa de ouvir, gostava do teu beijo e do teu toque protetor, gostava do teu riso tímido, mas eu preciso de mais. Eu preciso de sorrisos trágicos e fulminantes, da cachaça e da música alta. Eu preciso de confusão. Eu preciso de dor, de depressão, eu preciso que as coisas subam e desçam sem parar em ritmo pulsante, e você só pode me dar uma calmo rio pra que eu possa nadar no raso, quando eu quero ser jogado em mar aberto pra me afogar no meu próprio mar de poesia.Você me deu soluções quando eu procurava problemas. Eu preciso de mais, eu preciso de entrega, eu preciso de ”sim”, o ”talvez”, ou o ”mais tarde” não me atrai. Eu preciso do agora, dos pés descalços, de encontros inesperados, de ligações fora de hora, de arrependimentos, de sexo incessante. Eu preciso de tanto e você não pode me dar tudo isso, não sei se pelas suas feridas já cicatrizadas ou sua mania de tristeza. Suas feridas te derrubam, as minhas só me doem em um dia, no outro já estou pronto com uma garrafa de vinho, pronto pra viver, pra entregar, pra correr, pra tudo que o mundo pode me dar. Eu não estou dizendo que você não ama ou que você seja pouco, é só que vivemos em frequências diferentes e eu não aguentaria viver dentro do teu barquinho, eu não suportaria o silêncio por muitas horas. Eu sou muito mais bloco de carnaval que o silêncio de domingo. Pelo bem da tua saúde, fique longe de mim. Que pelo bem da minha, ficarei longe de você. A gente não se encaixa, você precisa de um par pra dançar e eu de um par pra me afogar, sem saber nadar. Assim que te vi primeira vez, eu te quis, e agora, eu só quero que você fique bem.

moreno

O que acontece com teu peito quando pensa em mim? Nesse fim de noite de domingo eu vesti tua camisa, aquela que ficou comigo quando passei uma das nossas noites na tua casa, você disse que aquela era sua menor camisa, e até hoje ela me cai até o joelho, eu e meu tamanho. Desfilei com ela pelos cantos do teu lar, nela não existe mais seu cheiro, mas ela ainda me veste você. Meu cabelo tá molhado e existem coisas que eu preciso ler, mas lembrar de você é minha prioridade aos domingos, você conhece minhas nádegas sentimentais e sedentas de vida. Naquela noite a cabeceira da tua cama foi meu apoio enquanto eu estava sentado no seu colo, sua cabeça encostava na parede enquanto eu selava seu rosto todo com meus lábios, e você de olhos fechados sorria sem mostrar os dentes, e suspirava. Num golpe rápido você me virou pra baixo de você e minhas pernas te puxavam pra mim. “Minha camisa fica em melhor em você, mas agora eu vou precisar tirar.” E você tirou, e me beijou. É, Moreno, nessa noite de domingo eu ando descalço pelos cômodos da minha casa, vestindo sua camisa, como se na sala eu fosse te encontrar no sofá, roendo a unha. Ou no banheiro te encontrar sem roupa nenhuma inventando qualquer desculpa pra me enfiar no chuveiro com você: ”Amor, eu não consigo esfregar minhas costas.” Às vezes você falava como se não existisse quando eu não estava ali. Na cozinha você revirando a geladeira, gritando meu nome e anunciando sua fome, e na cama depois de gozar em mim, provocando minha alma cheia de conflitos me fazendo gesticular e filosofar diante de discussões existenciais que você instigava pra me ver falar sem parar. Eu queria que você estivesse aqui pra massagear meus pés. A vida tem me feito correr e tenho estado cansado, tenho tentado me defender como você me ensinou, eu lembro como socar tudo que me faz sofrer, mas ainda sim tem sido difícil, me sinto sozinho numa guerra fria, meus soldados estão em volta, mas me sinto desprotegido, o problema como sempre deve ser eu. Eu não descobri como me resolver, sou o problema mais sério que já tive. É, Moreno, eu ainda lembro das suas manias e tuas gozadas, lembro da chuva de junho que nos impediu de sair, mas fez com que a gente transasse na entrada do teu prédio no espaço coberto onde qualquer um que entrasse poderia ver, você lembra do meu cheiro, pois meu cheiro te faz lembrar os dias em que tudo fazia sentido, a gente só não sabia.

DAS NUVENS

Agora eu volto a ser aquele Pianista que te encantou, e nessa partitura eu te sinto nos meus dedos, o ritmo dessa canção é frenético como as batidas do teu músculo coração. Eu quero falar das flores e nessa nuvem de algodão que me sento pra lembrar de você, eu quero te falar que tudo valeu a pena, foi bonito como as penas de um pássaro que voa, foi caótico como pássaro preso em gaiola fria, foi doce como o som do beija-flor que pousou hoje na minha janela, ele veio me avisar que hoje eu precisava falar de você. A última vez que fui te abraçar quase não terminei o que fui fazer, disse as poucas palavras que precisava dizer e me senti estranho por perder as frases, você com as mãos no bolso e eu inquieto, não queria que chegássemos a isso, ainda que você não exista mais no parque que fica no meu quintal, lá você já brincou e bagunçou, não era pra gente se encontrar assim, mas o tempo causa isso. Eu quero te falar sobre nosso primeiro beijo depois da nossa primeira briga, inesperado. Todas as cartas que trocamos como dois desesperados pra que não nos faltasse amor em um mundo perigoso desse. Eu quero te falar sobre as escapadas pra que seu lábio pudesse encostar no meu, da primeira distância e as milhões de acusações, as lágrimas, o repúdio, o desespero, a primeira saudade. Eu queria me desculpar por todas as vezes que rejeitei teus pedidos de amizade, eu tinha medo que isso significasse ser só teu amigo, eu não sabia que daria pra ser teu amigo e ainda obter teu corpo, teus beijos e os teus braços pra me pegar no colo, se dava você esqueceu de me avisar e eu sendo eu tomei medidas baseadas na minha loucura. Nada me move mais que o medo da ausência e tua ausência sempre me quebrou os ossos como se neles me pregassem pregos, que dor. Eu quero te falar sobre nosso primeiro susto, a escadaria, o canto da garagem, as caras fechadas, o quarto que não era nosso. E a longa distância de tempo e espaço. Eu quero te falar das novas asas e o abate da saudade, do dia em que te esperei deitado na mureta da praia e pedalando você chegou, agora você me beijava assim junto ao vento que passava, o anúncio que naquele dia estava tudo bem, me pareceu feliz a ideia de ser teu em outras circunstâncias, você gritou amor no meio de toda aquela areia, meu corpo roçava no teu ao som das ondas de fundo, eu quase não voltei pra casa naquele dia, aquela árvore ainda guarda nossas lembranças. E você? Era bonito sem pedir pra ser, a gente sempre se entendeu, poucas vezes no diálogo, mas nosso peito entende o outro, minha alma gosta da tua, profundamente, e isso é fato quase não possível, você tem dormido bem? E os doces? Eu quero te falar sobre as preocupações, sobre o dia a dia, teria sido bom experimentar tudo isso de uma forma menos insegura, mas meu amor, valeu a pena, foi bonito como as penas de um pássaro que voa. Eu quero te falar sobre o carnaval. E ponto, a palavra carnaval quando envolvida ao nosso nome já deve te fazer lembrar do que foi. Eu quero te falar sobre você no meu colchão e as fotografias do teu sono, o presente que te dei, você admirando a lua na rua da minha casa, o cachorro do vizinho, você me dando a mão do outro sofá, me carregando no colo até a cintura, me beijando pela casa, dormindo do meu lado, me trazendo pra casa, me assistindo chorar, você me viu quase sem pele e nessa nuvem me cai uma lágrima de lembrar. Eu quero falar sobre as lágrimas que derramei. Foram muitas. Nosso amor é como o ciclo da vida em que eu acredito, eu juro não saber o que ainda vai nos acontecer, se é que vai, mas pra ti janela sempre aberta, eu ando por aí, na loucura de sempre, esqueço de lembrar de você, mas quando te vejo meu coração adora o que vê. Eu quero falar sobre as cartas falecidas no mar das glórias, tragédias e comédias. Quero falar que essa podia ser uma canção pra se guardar na gaveta e tirar pra ouvir quando der vontade de voltar as memórias vividas na carne, sem medo e com muita vastidão. Eu quero falar sobre coisas que passam, que voltam, que morrem, que sobrevivem, que se transformam, que findam, que fim. Eu quero falar sobre sorrisos que ainda me preenchem o rosto e vejo preencher o teu, eu quero falar sobre meu piano desafinado. E você, quer falar sobre o que?

QUEM SABE EU VOLTE

Eu queria conseguir ignorar todas as dores que existem entre nós, todos os erros fatídicos que provocaram essa distância fria e turbulenta entre nós. Eu ignorei – por muitas vezes – todos aqueles dias em que você me fez sangrar, e tudo por que você insiste em viver em um lugar onde ninguém consegue entrar, um lugar que você inventou no ponto mais alto da tua loucura fantasiosa e essa tua vontade absurda de fugir desse mundo, eu queria poder te dizer que fugir desse mundo é a maior covardia de todas, a gente precisa estar nele, vivê-lo, se não a gente morre tentando escapar do que não se escapa. Você foi. Você voltou. Você foi de novo. Você voltou de novo. Você ficou. Trepou comigo na minha cama, olhando nos meus olhos, eu lembro, eu vi, e ouvi. Eu ouvi você dizer que me amava. Eu acredito naquilo. Mas a gente insiste em deixar que nossos orgulhos e conceitos sejam maiores que o nosso amor. Me desculpa, eu já não consigo mais lidar com isso. Eu cansei. Essa calça jeans que coloquei é pra fugir daqui de vez, te deixei uma agenda pra você anotar todos seus egoísmos lá, em ordem alfabética, assim você não se perde nas contas das dores que causou pela mania indiscreta de tornar seus sentimentos um crime imperdoável.